Naturistas se despem no Parque Ibirapuera em prol da liberdade naturista

Treze pessoas tiraram a roupa no Parque Ibirapuera em pleno domingo de sol, e o céu não caiu

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“Não sei nada, não proponho nada, procuraremos juntos” começou Alfredo, que usa cabelo comprido, barba exuberante, e atualmente o nome “Epycuro Macunayma “. “É absurdo que seja proibido ficar pelado. Pode ser uma coisa tão simples.”

O ato em prol de liberdade visa tornar o nudez não sexual, uma coisa prosaica. “Acho que não deve haver mais áreas específicos, restritos para naturismo, como uma gaiola, ou uma jaula.”

Havia uns 33 interessados quando Alfredo começou o ato, meia hora depois das 14 h marcada. A visão de Alfredo é de eventualmente liberar a nudez simples, não-sexual, em “praças, praias e cachoeiras”. Como efeito imediato, ele quer uma mudança de ideias, uma “Proposta de paz e amor”, para que “pessoas sejam mais tolerantes”, e que por exemplo mulheres tenham o direito de andar de saia curta sem ser incomodadas, “a mesma ideia defendida pela Marcha das Vadias.”

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O público, bastante misturado, incluiu muitos, como o próprio Alfredo, em que suas estampas remetiam à época hippie: um jovem negro com túnica indiana, que veio com a esposa e o filho de dois anos e meio; um rapaz com tatuagens, roupa, barba e cabelo de místico indiano, que em conversa se revelou paulistano nato; e uma mistura notável de moças bonitas.

Aval legal

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Outro organizador, Marcelo Alvez explicou por e-mail detalhes da organização e do respaldo legal, que contou com, se não apoio, pelo menos anuência dos autoridades. O evento foi comunicado para: Prefeitura de São Paulo, Guarda Civil Metropolitana, Assessoria de imprensa do Parque Ibirapuera; Administração geral do Parque Ibirapuera; Coordenação de eventos do Parque Ibirapuera;

Marcelo informou ainda que comunicou e foi orientado pelo juiz responsável por grande eventos, que fica no prédio do Tribunal de Justiça de que, não havendo uma negativa de nenhuma destes órgãos, o evento poderia proceder.

Interação com o público do parque

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O grupo se encontrou em baixo de umas palmeiras altas na Praça da Paz, num dos gramados maiores do parque, longe do movimento constante dos passeios com suas pistas de ciclismo e cooper.

A conversa de abertura de Alfredo foi seguida por colocações dos participantes. O psiquiatra Dr. Marco contou que estava no Ibirapuera onze anos atrás para a foto de Spencer Tunic, e não foi o único dos presentes que participou. Mas sua foto saiu nos jornais, e ele foi demitido do seu trabalho de gerente de marketing na segunda-feira seguinte.

Houve várias colocações sobre os obstáculos que precisam ser vencidos para a aceitação da nudez simples. “Há falta de preparação”, sugeriu uma mulher. “É preciso dar tempo ao tempo”, completou outro.

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Gabriela Biló da Futura Press, cujas fotos do evento saíram nos sites da Globo, UOL, e Terra, entre outros, aconselhou que “A imprensa vai com o que choca”, que um evento assim “num lugar movimentado, durante a semana, explode.” Sugeriu a importância de “falar com uma voz só.” Ela elogiou o primeiro evento, em que os participantes se enrolaram num pano preto sugerindo a barra de censura. Ela deu também os limites das fotografias aceitas pela imprensa, acrescentando que “no Carnaval, tudo pode”.

Alfredo declarou que preferiu uma postura menos confrontativa, “uma manifestação mais festiva”. “A grama está pelada, as árvores estão peladas, os bichos estão pelados, e a gente aqui de roupa, passando calor.”

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O médico infectologista Dr. Luciano contou que ele recebeu vários pacientes com doença de pele que tinham passado por seus colegas antes de chegar no seu consultório, que ele tratou “receitando tirar a roupa. Sem pílulas nem pomadas, eles se curaram assim. E não foi um caso só, foram vários”. Em contraste, quando ele tratou índios na Amazônia, “Foi uma luta convencê-los a colocar roupa para entrar no avião para ir ao hospital. Às vezes foi mais trabalho do que o tratamento.”

A dança em roda

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Alfredo então sugeriu uma “dança de roda indígena”, e começou entoar um canto para acompanhar, “Rê-ananá, rê-ananá, rê-ananá, rê …”. O grupo começou separar um pouco, uns entoando e aproximando, e outros se afastando um pouco. Chegando a hora de dançar, doze tiraram a roupa – oito homens e quatro mulheres -, juntaram as mãos, e começaram dançar em volta de uma das palmeiras.

Os fotógrafos presentes entraram em ação, e o público do parque começou a prestar atenção. Aquele grupo entre muitos outros usuários do parque, começou atrair espectadores. Enquanto a dança continuou os espectadores olharam de uma certa distância. Mas aí a roda acabou.

“Chega mais”, uma mulher chamou os frequentadores do parque. “Chega mais”, disse Alfredo, e o público chegou. Alfredo, sentado como um profeta num pano amarelo, os dançarinos e dançarinas em volta, repetiu seu discurso da importância de pureza, paz e amor. Levando o discurso de liberdade, agora para um público maior e bastante heterogêneo. O fim do discurso foi recebido com aplausos. O convite de se juntar ao grupo, porém, não atraiu adeptos.

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Kauê, com 18 anos e com barba rala que destoava do visual hippie predominante, falou que veio para o evento “Pela liberdade”, mas ficou fora da roda em volta da árvore, contando que “Não gosto de tantos fotos”. Porém, um pouco mais tarde tirou o calção, e até posou para fotógrafos fazendo malabarismo com três bolinhas coloridas: “Ficou bom? Quer que faça outra vez?” O último a tirar a roupa, foi quase o último a colocar de volta. Confidenciou que, “Tinha medo de ficar excitado, mas não aconteceu.” Estudante, é de São Paulo mas já morou em Marília. Não tem seus planos futuros definidos, mas quer algo que permita seguir seu interesse em fazer música.

Leo veio com a esposa e o filho pequeno, que “já está acostumado com o naturismo”, mas que tirou uma soneca debaixo de uma árvore durante todo a nudez do ato. “Sinto vontade de ficar nu faz tempo. Faz anos que sou adepto”, disse Leo, que já visitou seis estados do Brasil. “Em todos os lugares, sempre que tem um jeito, pratico. E quando não há um jeito, a gente cria.” Perguntado sobre a presença de espectadoras de olhares lascivos, ele disse que “não me senti constrangido, mas me senti incomodado com as fotos de uma pessoa em cima de uma garota, pessoas implicando com algo tão inocente”. Um dos dois naturistas negros presentes, ele afirmou que não sofre problemas em áreas naturistas por causa do cor de pele, “me sinto à vontade.”

Busi Luna, paulistano nato disse da sua aparência indiana: “Não tem explicação, é assim mesmo.” “O amor à natureza me trouxe ao evento”, ele afirmou.

Um naturista tinha notado durante o evento dois discretos segurança à paisana, três de bicicleta, e um carro do Guarda Municipal acompanhando a manifestação a uma certa distância. Quando a roda e o discurso já tinham acabados, vários dos presentes continuaram nus. Os grupos de curiosos – não somente homens, mas também mulheres e adolescentes, tinham em grande parte dispersados, talvez por causa da curiosidade saciada, quando não tinha mais “evento” para assistir, mas somente gente pelada.

Não faltou garota bonita

Nesta hora houve uma presença mais visível de seguranças. Um deles, Anderson contou para Olho Nu que “Houve muitas reclamações, mais por causa das crianças. Houve umas senhoras que reclamaram no Portão Nove. Há a tranquilidade das crianças, mas a questão de expressão.” Apesar da ciência do evento dada para as autoridades, Anderson disse, “Eu não estava sabendo de nada, não de um evento deste porte.” O site G1 porém constatou que nenhuma delegacia da região registrou ocorrência relacionado ao ato.

Repercussão na mídia

Globo e Terra colocaram as fotos de Gabriela com destaque, com comentários habilitados. No dia seguinte, Terra contabilizou 750 “curtidas” e 414 comentários, enquanto Globo ostentava 663 comentários, 250 tweets e 3,4 mil recomendações. Os comentários variavam do condenatório “Sodoma e Gomorra” ao favorável, como “Parabéns aos naturistas de São Paulo. Jacaré parado vira bolsa de madame. Aceitar o naturismo em uma dúzia de guetos pode não ser suficiente. Naturismo não é só um privilégio para poucos, deveria ser saúde mental para todos.”

Jornal Olho Nu

*por Richard Pedicini

*Imagens: Vilson Silva